← Todos os artigos

Ortopedia Pediátrica

Pé torto congênito: o que é e como é o acompanhamento

Escrito e revisado por Dr. Rafael Vargas — Médico · CRM-SP 226103 · RQE 137901

Receber a notícia de que o bebê nasceu com o pé "virado" costuma assustar. A boa notícia é que o pé torto congênito, também chamado de pé equinovaro, é uma das condições mais estudadas da ortopedia pediátrica e tem um caminho de tratamento bem estabelecido. Na maioria dos casos descritos, quando o acompanhamento começa cedo e todas as etapas são seguidas, a criança cresce andando, correndo e brincando com pés funcionais. Este artigo explica, em linguagem simples, o que é essa deformidade, como funciona o método de Ponseti, por que a órtese é a etapa mais decisiva e como deve ser o acompanhamento até o fim do crescimento.

O que é o pé torto congênito

O pé torto congênito é uma deformidade presente desde o nascimento, em que o pé aponta para baixo e gira para dentro, às vezes de forma tão acentuada que a planta do pé chega a olhar para trás ou para cima. Por trás dessa aparência existem quatro componentes que se combinam: o equino (o pé fixo na posição "de ponta", como se pisasse com a ponta dos dedos), o varo (o calcanhar virado para dentro), o aduto (a parte da frente do pé apontando para dentro, em direção ao outro pé) e o cavo (o arco da planta do pé mais fundo do que o habitual). Ossos, articulações, músculos e tendões da perna e do pé participam da deformidade — por isso ela não se corrige sozinha.

É importante diferenciar o pé torto verdadeiro, que é uma malformação estrutural, do chamado pé torto posicional, em que o pé é normal, mas ficou moldado por uma posição apertada dentro do útero. O posicional é flexível, melhora com medidas simples e tem evolução muito mais fácil; o verdadeiro é rígido ao exame e exige o tratamento completo. Distinguir um do outro é papel da avaliação especializada nas primeiras semanas de vida.

O pé torto congênito é relativamente comum: as fontes internacionais descrevem cerca de um caso a cada mil nascidos vivos, acometendo os dois pés em aproximadamente metade das crianças e sendo mais frequente em meninos. Nenhuma família está sozinha nessa jornada.

Não é culpa dos pais

Essa é, talvez, a mensagem mais importante para quem acabou de receber o diagnóstico. Na maioria das vezes o pé torto é idiopático — palavra técnica para "sem uma causa única identificável". A literatura aponta uma combinação de fatores genéticos e ambientais: a condição pode se repetir em algumas famílias, mas não decorre de nada que a mãe fez ou deixou de fazer na gestação. Não foi a posição em que dormiu, não foi um susto, não foi um alimento. Em uma parcela menor dos casos, o pé torto aparece associado a outras condições neurológicas ou sindrômicas, e parte da primeira consulta é verificar se há algo além do pé. Culpa, aqui, não ajuda ninguém — informação e início precoce do tratamento, sim.

O método de Ponseti: correção com gessos seriados

O tratamento padrão em praticamente todo o mundo é o método desenvolvido pelo médico Ignacio Ponseti, nos Estados Unidos. A lógica é aproveitar uma característica única do bebê nas primeiras semanas de vida: seus ligamentos e tendões ainda são muito flexíveis e respondem ao alongamento suave e progressivo.

Na prática, funciona assim: a cada semana, o pé é delicadamente manipulado alguns graus em direção à posição correta e imobilizado com um gesso que vai do pé até a coxa, mantendo o ganho obtido. Na semana seguinte, troca-se o gesso e avança-se um pouco mais. Cada componente da deformidade é corrigido em uma sequência bem definida — não é um "gesso qualquer", e a técnica correta faz diferença no resultado. Nas descrições clássicas do método, a fase de gessos costuma exigir entre cinco e oito trocas, ou seja, poucas semanas de tratamento intensivo. O bebê, em geral, tolera bem: não se trata de um processo doloroso, e a amamentação durante a colocação do gesso costuma ser suficiente para acalmá-lo.

A tenotomia do tendão de Aquiles

Ao final da fase de gessos, na grande maioria dos casos descritos ainda resta o componente equino — o tendão de Aquiles (o cordão que liga a panturrilha ao calcanhar) permanece curto e impede que o pé suba por completo. Para resolver isso, o método prevê a tenotomia: um pequeno procedimento em que o tendão é seccionado (cortado) por uma incisão mínima, frequentemente sob anestesia local. Nessa idade, o tendão tem enorme capacidade de cicatrização e se regenera no novo comprimento, ao longo de cerca de três semanas dentro de um último gesso. Embora a palavra "cirurgia" assuste, trata-se de um gesto técnico simples, rápido e previsto no protocolo — e não de um sinal de que o tratamento "não deu certo".

A órtese de abdução: a etapa que decide o resultado

Terminados os gessos, começa a fase que considero a mais decisiva de todas: a manutenção com a órtese de abdução, popularmente conhecida como "botinha com barra". São duas botinhas presas a uma barra, que mantêm os pés rodados para fora e impedem que a deformidade retorne enquanto a criança cresce. No esquema habitual, a órtese é usada praticamente em tempo integral nos primeiros meses e, depois, apenas para dormir à noite e nas sonecas, por alguns anos — as fontes internacionais descrevem o uso até por volta dos três a quatro anos de idade.

Aqui está o ponto que peço a todas as famílias que gravem: o pé torto tem memória. A correção obtida com os gessos é real, mas as forças que deformaram o pé continuam ativas durante o crescimento. Interromper a órtese antes da hora, ou usá-la "só de vez em quando", é a principal causa evitável de recidiva (retorno da deformidade) descrita na literatura. As primeiras noites com a botinha podem exigir adaptação, e a equipe deve orientar truques práticos para esse período — mas abandonar a órtese por conta própria significa arriscar todo o caminho já percorrido.

Recidivas acontecem — e têm tratamento

Mesmo com tudo feito corretamente, uma parcela das crianças apresenta recidiva, ou seja, o pé volta a apontar para dentro ou para baixo em algum grau. Isso não é fracasso da família nem do método: faz parte da natureza da condição, e é por isso que o acompanhamento regular existe. Detectada cedo, a recidiva costuma ser tratada com uma nova série curta de gessos e o reforço da órtese. Em algumas crianças um pouco maiores, pode ser indicada a transferência do tendão tibial anterior (um reposicionamento de tendão que ajuda a equilibrar as forças que puxam o pé), procedimento também previsto dentro da filosofia do método. Cirurgias maiores, com abertura das articulações, ficaram reservadas a situações específicas — cada caso precisa ser avaliado individualmente.

Acompanhamento até o fim do crescimento

O tratamento do pé torto não termina quando a botinha é aposentada. Enquanto houver placa de crescimento (fise) aberta — isto é, enquanto a criança estiver crescendo —, o pé pode mudar, e consultas periódicas permitem flagrar qualquer tendência de recidiva ainda na fase em que a correção é simples. Nas revisões, observamos a forma do pé, a flexibilidade, o padrão de marcha e o desgaste dos calçados, além do desenvolvimento global da criança. A frequência das consultas vai se espaçando com a idade, mas a vigilância deve seguir até a maturidade esquelética, quando o crescimento se completa.

Vale lembrar que a perna do lado afetado pode ser um pouco mais fina na panturrilha e o pé, discretamente menor — características esperadas da condição, que em geral não limitam a função. Quando há diferença de comprimento entre as pernas (discrepância de comprimento dos membros, também chamada de anisomelia), ela costuma ser pequena, mas é um dos itens monitorados ao longo do crescimento.

Uma mensagem final para as famílias

O pé torto congênito é uma condição séria, porém tratável, com um protocolo maduro e reproduzido no mundo inteiro. A experiência acumulada mostra que três fatores pesam a favor da criança: começar cedo, seguir cada etapa do método e não abandonar a órtese nem o acompanhamento. Se o seu bebê nasceu com um ou os dois pés virados, ou se você tem dúvida sobre o formato do pé dele, procure avaliação com um ortopedista pediátrico. Cada criança é única, e somente o exame individual permite definir o diagnóstico exato e o plano adequado para o seu filho.

Referências

  1. Clubfoot — OrthoInfo (American Academy of Orthopaedic Surgeons)
  2. Clubfoot — Boston Children's Hospital
  3. Pé torto e outros defeitos do pé — Manual MSD, Versão Saúde para a Família

Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui a consulta médica presencial nem estabelece relação médico-paciente. Cada caso exige avaliação individual; não há garantia de resultado.

Dr. Rafael Vargas — Médico · CRM-SP 226103 · RQE 137901 — Ortopedia Pediátrica · Reconstrução e Alongamento Ósseo — São Paulo

Agendar