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Reconstrução Óssea

Pseudartrose: quando a fratura não consolida

Escrito e revisado por Dr. Rafael Vargas — Médico · CRM-SP 226103 · RQE 137901

A maioria das fraturas consolida (cola) dentro de um período esperado, que varia conforme o osso e o tipo de lesão. Quando esse processo não avança e o osso permanece sem unir muito além do tempo previsto, falamos em pseudartrose — literalmente, uma "falsa articulação", muitas vezes com mobilidade anormal em um ponto que deveria estar firme. Entender por que a consolidação falhou é o primeiro passo para planejar o tratamento, sempre de forma individualizada.

O que é pseudartrose

Depois de uma fratura, o osso passa por um processo biológico de reparo que ocorre em fases sobrepostas: uma fase inflamatória inicial, uma fase de reparo, em que se forma o calo ósseo (o "cimento" provisório que une os fragmentos), e uma fase de remodelação, em que esse calo é substituído por osso maduro. Na maior parte dos casos, esse percurso se completa em algumas semanas a alguns meses, conforme o osso envolvido e a gravidade da lesão.

Quando a consolidação demora mais do que o habitual, mas os exames ainda mostram sinais de progresso, fala-se em retardo de consolidação. Já quando as imagens obtidas ao longo do acompanhamento mostram que o processo estagnou — em geral, a suspeita se fortalece quando não há progressão após vários meses, frequentemente na faixa de seis a nove meses, a depender do osso e do contexto —, caracteriza-se a pseudartrose. Nesse cenário, o foco da fratura passa a se comportar como uma articulação que não deveria existir: em vez de um osso contínuo e firme, há um ponto de mobilidade anormal, muitas vezes doloroso.

Por que algumas fraturas não consolidam

Para unir, o osso precisa essencialmente de duas coisas: biologia favorável e estabilidade mecânica. As causas de pseudartrose costumam se agrupar em torno desses dois eixos — e, com frequência, os dois estão comprometidos ao mesmo tempo.

No eixo biológico, o fator central é a vascularização (irrigação sanguínea) do foco da fratura. Fraturas expostas, lesões graves de partes moles e infecções podem comprometer esse suprimento; além disso, alguns ossos e regiões têm irrigação naturalmente mais delicada, o que os torna mais suscetíveis. Fatores do próprio paciente também pesam: o tabagismo prejudica a microcirculação e está associado a maior risco de falha de consolidação; o diabetes mal controlado interfere na cicatrização; deficiências nutricionais (como a de vitamina D e a de proteínas) e o uso prolongado de certos medicamentos, como corticoides — e, possivelmente, alguns anti-inflamatórios, ponto ainda em debate na literatura — também podem atrapalhar.

No eixo mecânico, o problema é a instabilidade: quando há movimento excessivo entre os fragmentos — seja por imobilização insuficiente, por falha do material de fixação ou por carga antes da hora —, o corpo não consegue construir a ponte óssea que atravessaria o foco. Perdas ósseas (quando falta um trecho de osso entre os fragmentos) e o afastamento entre as extremidades também dificultam a união. Identificar quais desses fatores estão presentes em cada caso é parte central da avaliação, porque é isso que orienta a conduta.

Sinais de alerta

O sintoma mais característico é a dor que persiste no local da fratura meses depois da lesão. O esperado é que a dor diminua progressivamente à medida que o osso consolida; quando ela se mantém — sobretudo aos esforços ou ao apoiar o membro —, é um sinal de que algo merece investigação.

Outros sinais incluem a sensação de instabilidade ou de movimento anormal no ponto da fratura (a impressão de que o local "mexe"), dificuldade para usar o membro em atividades que já deveriam ter sido retomadas, claudicação (mancar) quando o problema é nos membros inferiores e, em alguns casos, deformidade que aparece ou piora com o tempo. O diagnóstico não se baseia em um sinal isolado: ele é confirmado pela combinação do exame clínico com exames de imagem seriados.

Os tipos: hipertrófica, atrófica e infectada

Nem toda pseudartrose é igual, e essa distinção importa para o tratamento. Na pseudartrose hipertrófica, a biologia está preservada: o osso forma calo abundante ao redor do foco — nas radiografias, um aspecto por vezes comparado a uma "pata de elefante" —, mas a união não se completa porque falta estabilidade. É como se o osso estivesse tentando colar e o movimento constante impedisse.

Na pseudartrose atrófica, ocorre o oposto: há pouca ou nenhuma formação de calo, e as extremidades ósseas se apresentam afiladas e pouco vascularizadas. Aqui o problema predominante é biológico, e o tratamento precisa levar estímulo biológico ao foco, não apenas estabilidade. Existem ainda formas intermediárias (oligotróficas), em que a resposta biológica é apenas parcial.

A pseudartrose infectada é um capítulo à parte: além da falha de união, existe infecção no foco (osteomielite, a infecção do osso). Nesses casos, o controle da infecção passa a ser prioridade, e o tratamento costuma ser conduzido em etapas.

Como é feita a avaliação

A investigação começa pela história: como foi a fratura original, quais tratamentos e cirurgias já foram realizados, como evoluiu a dor, se houve sinais de infecção (febre, secreção, feridas que demoram a fechar), além de hábitos e doenças que interferem na consolidação, como tabagismo e diabetes. O exame físico avalia dor e mobilidade no foco, o estado da pele e das partes moles, o alinhamento e o comprimento do membro — lembrando que pseudartroses podem se associar a deformidades e a discrepância de comprimento dos membros (diferença de comprimento entre eles).

Nos exames de imagem, as radiografias seriadas mostram se houve ou não progressão da consolidação ao longo do tempo, e a tomografia computadorizada ajuda a quantificar quanto do foco está realmente unido. Exames de sangue — como hemograma e provas inflamatórias (VHS e PCR) — auxiliam no rastreio de infecção, e, em casos selecionados, colhem-se culturas do foco durante a cirurgia para identificar bactérias. Também pode fazer sentido investigar fatores metabólicos, como os níveis de vitamina D, cuja correção ajuda a criar condições mais favoráveis à consolidação.

Princípios do tratamento: estabilidade e biologia

O tratamento parte de uma lógica simples de enunciar: devolver ao foco da fratura aquilo que está faltando. Quando o problema é predominantemente mecânico — como nas pseudartroses hipertróficas —, busca-se proporcionar estabilidade adequada, o que pode envolver a revisão ou a troca do material de fixação. Com o foco estável, o potencial biológico que já existe tende a completar o trabalho.

Quando o problema é biológico — como nas formas atróficas —, além de estabilizar, procura-se estimular o foco: remove-se o tecido não viável e, com frequência, utiliza-se enxerto ósseo (osso retirado do próprio paciente, em geral da bacia, ou substitutos e enxertos de banco de ossos), que funciona como uma "semente" para a formação de osso novo.

Na pseudartrose infectada, a sequência muda: primeiro o controle da infecção — com limpeza cirúrgica (desbridamento), remoção de implantes comprometidos e antibióticos orientados por cultura — e depois a reconstrução, muitas vezes em etapas. Quando existe perda óssea significativa, entram em cena técnicas de reconstrução como o fixador externo circular e o transporte ósseo — método em que um segmento saudável de osso é deslocado gradualmente, milímetro a milímetro, para preencher a falha, formando osso novo no trajeto (princípio da osteogênese por distração, base do método de Ilizarov). O mesmo raciocínio permite abordar, no mesmo tratamento, deformidades e encurtamentos associados.

Além da cirurgia, o plano inclui otimizar o terreno: interromper o tabagismo, controlar o diabetes e corrigir deficiências nutricionais fazem parte do tratamento — não são detalhes. Nenhuma técnica garante a consolidação por si só; o objetivo do planejamento é reunir as melhores condições mecânicas e biológicas para que o osso possa unir.

A importância do plano individualizado

A pseudartrose costuma ser um problema de difícil solução, e é justamente por isso que se beneficia de planejamento minucioso e visão de longo prazo. Cada caso combina, em proporções diferentes, fatores mecânicos, biológicos e, às vezes, infecciosos — e não existe receita única: a estratégia que faz sentido para uma pessoa pode não ser adequada para outra.

Se você convive com dor, instabilidade ou dificuldade de uso do membro muito tempo depois de uma fratura, vale procurar avaliação especializada para entender por que a consolidação não aconteceu e quais são os caminhos possíveis. Cada alternativa — com suas etapas, seus riscos e seu tempo de tratamento — deve ser discutida abertamente, para que a decisão seja construída em conjunto, com expectativas realistas e informação clara. Cada caso exige avaliação individual.

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica.

Referências

  1. Nonunions — OrthoInfo (American Academy of Orthopaedic Surgeons)
  2. Considerações gerais sobre fraturas — Manual MSD Versão Saúde para a Família
  3. Visão geral das fraturas — Manuais MSD edição para profissionais

Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui a consulta médica presencial nem estabelece relação médico-paciente. Cada caso exige avaliação individual; não há garantia de resultado.

Dr. Rafael Vargas — Médico · CRM-SP 226103 · RQE 137901 — Ortopedia Pediátrica · Reconstrução e Alongamento Ósseo — São Paulo

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